Compostos da cannabis estão sendo estudados e podem ser benéficos para doenças neurodegenerativas; Brasil pode ganhar centro de pesquisa em breve

*Texto de Anne Caroline Bomfim (Jornalista)

A Cannabis é uma das plantas mais antigas da humanidade e o seu uso data de 8 mil anos antes de cristo (a.C.), na China. Começou a ser usada para a produção de artigos têxteis e depois na medicina para o tratamento de epilepsias, náuseas, dores crônicas, inflamações e até ansiedade.

Em dezembro de 2019, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou a venda de produtos à base de maconha no país para fins terapêuticos. Segundo uma pesquisa do DataSenado, 75% da população brasileira apoia a autorização para a indústria produzir medicamentos à base da planta.

Mas o uso da cannabis no Brasil ainda é bastante controverso e divide opiniões. O proibicionismo tem sido imposto com base em preconceitos sociais, visto que a maconha está na lista de “drogas abomináveis” e o uso recreativo é ilícito.

Entretanto, o que muita gente não sabe é que ela possui mais de 700 substâncias químicas que podem ser extremamente benéficas para a nossa saúde e que não causam euforia e nem excitação.

Para desmistificar esse assunto, o Instituto Dr. Hemerson Casado entrevistou o médico boliviano Freddy Seleme. Ele adotou o Brasil como sua segunda casa e é referência em terapia canábica.

Vale a leitura!

1. A HISTÓRIA DA CANNABIS

Com mais de 25 mil usos catalogados pelo homem, a cannabis ajudou na evolução da civilização humana desde a descoberta da agricultura. Tornou-se uma das primeiras plantas cultivadas no mundo, pois possui fibra resistente, podendo se adaptar em praticamente todos os tipos de solo.

Foi descoberta pelos chineses (8 mil a.C.) e usada, inicialmente, para a fabricação de papel e na indústria têxtil. Depois se espalhou pelo Oriente Médio, África, Europa e Ásia. As sociedades aproveitaram as propriedades da cannabis e também a consumiam como alimento, combustível, fumo e remédio.

Freddy Seleme é referência em terapia canábica (Foto: Arquivo Pessoal)

Na Índia, a planta é considerada sagrada. No Egito, as mulheres acreditavam que ela aliviava a tristeza e o mau humor.

“É a planta mais estudada da história. São séculos que a cannabis é usada pelo homem, mas só a partir dos últimos 50 anos é que conseguimos entender um pouco sobre como ela age no corpo humano”, explica o médico Freddy Seleme.

Natural de Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, Freddy mora há 7 anos em Alagoas. Ele também já passou pelos estados de São Paulo, Santa Catarina e Mato Grosso.

Além da especialização, possui certificações em fitoterapia (estudo das plantas medicinais para a cura de doenças) e terapia canábica, essa última pela HempsMeds, primeira empresa autorizada pela Anvisa a importar produtos à base de canabidiol no Brasil.

“Sou quase um nordestino importado. Já troquei o carnaval pelo São João”, brinca. Freddy se interessou pela terapia canábica após socorrer um paciente de 135kg que infartou.

“Lutei para colocá-lo na maca e, depois daquele dia, minha coluna nunca mais foi a mesma. Durante meses sofri de intensas dores que me deixaram dependente de analgésicos e anti-inflamatórios. Desenvolvi uma gastrite medicamentosa que me atrapalhou muito. Decidi procurar outras alternativas. Já era curioso e apaixonado por plantas medicinais. Foi então que decidi pesquisar e testar o canabidiol e funcionou muito bem no meu caso. Constatei que ele poderia ser uma opção terapêutica com poucos efeitos colaterais”, lembra.

2. CANNABIS SATIVA, CANNABIS INDICA E CANNABIS RUDEALIS

A cannabis é um gênero de planta que possui espécies com sua própria gama de efeitos no corpo e na mente. As diferentes cepas de cannabis contêm diferentes combinações de canabinoides. Basicamente, podemos dividir a cannabis em três grandes grupos:

  • Cannabis Sativa: tendem a fornecer uma experiência mais enérgica. A maconha é um exemplo de cannabis sativa;
  • Cânhamo: o cânhamo é uma planta esguia e com poucas ramificações laterais. Não causa efeitos psicoativos e tem potencial medicinal e terapêutico. As sementes são usadas na produção de alimentos, suplementos nutricionais, medicamentos e cosméticos. O caule e suas fibras são usadas na produção de papel, tecidos, cordas, compostos plásticos e materiais de construção.

(Foto: HempMeds Brasil)

  • Cannabis Indica: são plantas curtas, com vegetação espessa e folhas grossas e largas. Proporcionam sensação de relaxamento profundo no corpo;
  • Cannabis Rudealis: não produz efeitos potentes, portanto, não é utilizada. Geralmente se adaptam a ambientes extremos como Sibéria, Rússia e Europa Oriental. Não é usada para fins terapêuticos.

Como você pode perceber, cada variedade possui sua própria composição química, estética e aplicação médica.

(Foto: Portal Maconha Brasil)

3. QUAIS OS COMPONENTES DA CANNABIS?

As últimas pesquisas têm demonstrado que a cannabis possui mais de 700 substâncias, sendo que aproximadamente 40% dos seus extratos podem ser benéficos à saúde.

Os principais componentes da cannabis são o “THC” ou tetrahidrocanabinol, que tem efeito psicoativo, e o “CBD” ou simplesmente canabidiol, que tem potencial terapêutico e é usado no tratamento de epilepsia, esclerose múltipla, esquizofrenia, mal de Parkinson, autismo e dores crônicas.

O uso compassivo do canabidiol no Brasil foi autorizado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), conforme resolução nº 2.113/2014. “A permissão visa atender crianças e adolescentes portadores de epilepsias refratárias aos tratamentos convencionais”, destaca o médico Freddy Seleme.

4. O USO DO CANABIDIOL É INDICADO NO TRATAMENTO DE QUAIS DOENÇAS?

Canabidiol não é considerado um medicamento no Brasil (Foto: Arquivo Pessoal)

Ele pode atuar no controle de doenças neurodegenerativas, autoimunes e dores neuropáticas, por exemplo.

As substâncias à base de canabidiol podem ser prescritas por qualquer especialidade médica, de modo compassivo, ou seja, quando o paciente já tentou outros tratamentos sem efeitos positivos. Em casos mais graves, a substância pode ser indicada como tratamento inicial.

Os benefícios do canabidiol são:

  •  Causa relaxamento muscular e contribui com o alívio da espasticidade;
  • Reduz a sialorreia ou hipersalivação;
  • Possui ação anticonvulsivante;
  • É antiemético, atuando contra náuseas e vômitos;
  • Possui efeitos ansiolíticos, o que ajuda no tratamento da ansiedade e depressão;
  • Estimula a neurogênese no processo de formação de novos neurônios;
  • Reduz os efeitos colaterais que muitos medicamentos provocam, principalmente os de controle especial.

O médico Freddy também destaca alguns benefícios secundários do uso do canabidiol. Um deles é que não é necessário passar pelo processo de desmame que muitos medicamentos industrializados precisam por conta da dependência que causam.

“É um tratamento que você pode adaptar a sua rotina e não a sua rotina se adaptar a ele. O canabidiol também é capaz de reduzir os efeitos colaterais provocados pelo uso diário de medicamentos em pacientes com doenças crônicas. Esses medicamentos melhoram o quadro da doença, mas provocam outras”, complementa.

5. POR QUE O CANABIDIOL NÃO É CONSIDERADO UM MEDICAMENTO NO BRASIL?

Porque a terapia canábica ainda não é reconhecida como especialidade médica. A regra que detalha os critérios para o emprego do canabidiol com fins terapêuticos no Brasil veda a prescrição da maconha in natura, bem como de quaisquer outros derivados, e informa que o grau de pureza da substância e sua apresentação seguirão determinações da Anvisa.

“Na minha prática clínica uso óleos aplicados na mucosa oral, mas também existe o uso inalatório, por meio de vaporizadores. Importados temos cápsulas, óleos, sprays e supositórios”, informa o médico boliviano.

Terapia canábica inclui uso de vaporizadores,cápsulas e sprays (Foto: Divulgação)

6. QUAL A DIFERENÇA ENTRE CIGARRO DE CANNABIS E ÓLEO DE CANNABIS?

Existem 27 variedades modernas de cannabis. Fumar a planta significa adulterar os componentes durante a combustão do cigarro na procura do “THC” ou tetrahidrocanabinol que, conforme citado anteriormente, pode causar dependência, sem muito poder medicinal.

“Já nos óleos os componentes são bem aproveitados. O canabidiol não é psicoativo, ou seja, não dá aquele ‘barato’ procurado pelos apreciadores da planta. O uso recreativo, portanto, não faz parte da terapia canábica”, destaca o galeno.

7. CANNABIS E DOENÇAS RARAS

O uso terapêutico da cannabis pode auxiliar no tratamento das pessoas com doenças raras, conforme explica o médico Freddy.

Compostos da planta são ricos em antioxidantes, neuroprotetores e anti-inflamatórios (Foto: Divulgação)

Os canabinoides – compostos químicos produzidos pela planta – são ricos em antioxidantes, neuroprotetores e anti-inflamatórios capazes de diminuir a progressão de patologias como a Esclerose Lateral Amiotrófica, bem como sintomas associados à doença.

Em 2004, uma pesquisa apresentada pelo “American Journal of Hospice and Palliative Care”, nos Estados Unidos, descobriu os efeitos do uso de cannabis em pacientes com ELA.

“Foram relatados diversos benefícios com o uso da planta. Uma das principais vantagens inclui o alívio da depressão, que geralmente acompanha a ELA em algum grau, visto que a mente permanece completamente intacta à medida que a doença avança. Os pacientes também sentiram redução da dor, aumento do apetite e alívio da espasticidade muscular . Os benefícios, claro, vão depender de cada caso, afinal, cada paciente é um universo”, destaca.

8. A CANNABIS MEDICINAL É LEGALIZADA NO BRASIL?

Desde 1993, a cannabis tem sido usada para o tratamento de doenças. Israel foi precursor na regularização. Em 2001 foi a vez do Canadá. Porto Rico e Uruguai em 2015 e, em 2016, Colômbia e Chile. Nos Estados Unidos, 28 dos 50 estados aprovaram a utilização da maconha medicinal.

Mevatyl já tem aprovação em países como Alemanha, Suécia e Suíça (Foto: Divulgação)

No entanto, alguns medicamentos que possuem cannabis em sua composição já tem aprovação em países como Alemanha, Suécia e Suíça, e podem ser comercializados, como é o caso do Mevatyl.

Em dezembro de 2019, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou a venda de produtos à base de maconha para uso medicinal no Brasil. Com a regulamentação, eles podem ser comercializados em drogarias (exceto farmácias de manipulação) mediante prescrição médica.

“A boa notícia é que uma nova resolução da Anvisa, aprovada em janeiro deste ano, simplifica e traz ainda mais agilidade ao acesso do canabidiol no Brasil”, comemora o médico Freddy Seleme.

O plantio da maconha, contudo, não foi liberado no país, Desde 2014, mais de cinco projetos de lei sobre a regulamentação do cultivo da planta no Brasil foram propostos no Congresso.

Vale ressaltar que famílias do Rio de Janeiro e São Paulo conseguiram habeas corpus preventivos para plantar maconha em casa sem correr o risco de serem presas. De acordo com levantamento da Rede Reforma (Rede Jurídica pela Reforma da Política de Drogas), a cada cinco pedidos feitos à Justiça para plantar maconha para esse fim, quatro recebem aprovação.

O próximo passo é permitir o plantio coletivo por parte das famílias dos pacientes.

9. JUDISCIALIZAÇÃO

Só em 2015, o Ministério da Saúde foi obrigado a importar canabidiol para cumprir 11 mandados de segurança, gastando R$462 mil. Em 2018, esse número foi ainda maior: R$617 mil desembolsado dos cofres públicos.

O alto custo e a crescente judiscialização tem levado o Sistema Único de Saúde (SUS) e planos de saúde privados a fornecerem os produtos aos pacientes. A Folha publicou uma reportagem mostrando que, só em São Paulo, o número de ações judiciais cresceu 18 vezes em 4 anos.

10. PESQUISA: O ESTUDO DA CANNABIS AVANÇA

Com a crescente popularização do uso medicinal da cannabis no Brasil e em outras partes do mundo, iniciativas com foco em pesquisas científicas surgem a todo momento.

Freddy Seleme explica que interesse pelo estudo da terapia canábica é crescente no Brasil (Foto: Acervo Pessoal)

A Universidade do Norte de Michigan, nos Estados Unidos, criou um curso de quatro anos dedicado exclusivamente ao estudo da cannabis, seus usos e seus efeitos. “Temos mais de 10 universidades no mundo que oferecem grades completas que vão desde o empreendedorismo e bioquímica, até horticultura e aplicações médicas”, ressalta o médico boliviano.

No Brasil, as iniciativas também se fortalecem e chamam a atenção dos pesquisadores. Podemos citar alguns: Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis, grupo de estudo “Maconhabrás” vinculado ao Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, projeto Fio-Cannabis da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), USP e Universidade Federal de São Paulo. Esse último buscando preencher as lacunas da formação médica-científica em relação ao manejo da dor crônica e ao uso medicinal da maconha.

A USP prevê a criação de um Centro de Pesquisas Canabinoides em 2020, uma parceria da universidade com a farmacêutica brasileira Prati-Donaduzzi. O médico Antônio Zuardi, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), lidera os esforços. Saiba mais clicando aqui.

11. JOÃO PESSOA ABRIGA ASSOCIAÇÃO AUTORIZADA A CULTIVAR MACONHA NO BRASIL

A Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (ABRACE) é a única entidade autorizada a cultivar maconha medicinal no Brasil. A organização sem fins lucrativos tem como objetivo dar apoio às famílias que precisam de tratamento com a cannabis medicinal e oferecer assistência médica e jurídica aos mesmos.

Óleo Esperança (Foto: Acervo Pessoal)

O óleo de canabidiol produzido pela ABRACE, conhecido por “Óleo Esperança”, já impactou a vida de mais de mil famílias segundo dados do site da própria organização.

“Se dependesse de mim, abriria uma ABRACE em cada capital do país. Eles são merecedores de toda a admiração e lutam contra o preconceito e a ignorância que, infelizmente, ainda impera em uma sociedade que acorda com anfetaminas e antidepressivos e deita com um rivotril e ainda pergunta se pode beber quando medicado, mas condena o estrato de uma planta”, reflete Dr. Freddy.

12. CANABIDIOL NA FRENTE DE COMBATE AO NOVO CORONAVÍRUS

Recentemente, a ABRACE anunciou que vai distribuir frascos com concentração de 2% de canabidiol para profissionais da saúde que trabalham no combate ao novo coronavírus. O objetivo é testar a eficácia do medicamento contra os sintomas da COVID-19.

De acordo com a ONG, já existem estudos científicos que comprovam as propriedades bronco dilatadoras e anti- inflamatórias da cannabis. Inicialmente vão participar do experimento 40 médicos divididos em dois grupos: o primeiro receberá o óleo de canabidiol e outro o placebo. A expectativa é que a ABRACE realiza pesquisas com o apoio de universidades.

“Os compostos canábicos fortalecem a imunidade por meio da regulação do sistema endocanabinoide, uma excelente iniciativa para ajudar os nossos heróis da linha de frente desta pandemia que ameaça a todos e matará muitos ainda”, destaca Freddy.

O sistema endocanabinoide funciona como um sistema regulatório presente em todos os animais complexos , desde peixes até humanos . Diversas funções são reguladas , memória, digestão, motricidade, resposta imunológica , apetite , dor, pressão sanguínea, crescimento dos ossos , sono e proteção dos tecidos neuronais.